O Brasil é dialético
Aprendemos com o camarada
Karl Marx que a história do homem é feita de contradições.
Se prestarmos um pouco de atenção aos fatos recentes da política
brasileira, podemos concluir que o país é um poço
de dialética.
Diante da crise política
causada por um esquema de corrupção sem precedentes, montada
e administrada pelo partido do governo e por membros do próprio
governo, o presidente da República, em entrevista à nação,
explica que o partido fez o que todos os partidos sempre fizeram no país.
Ora, mas esse mesmo partido do governo não construiu sua história
sobre o argumento do combate à corrupção? Ao dizer-se
igual aos demais, não estaria contradizendo sua marca política
mais evidente, de que é "diferente" dos outros partidos e da tradição
partidária nacional? Ou devemos nos convencer de que a contradição
é mesmo radical e o partido mentiu para seus militantes e eleitores?
Dilemas da dialética...
Nas argüições
públicas acompanhadas ao vivo pela televisão, os membros
do partido do governo envolvidos no processo enfatizaram que todas as decisões
partidárias são transparentes e democráticas, discutidas
e aprovadas coletivamente. No entanto, a movimentação de
milhões [talvez bilhões] de reais em nome do partido, para
o partido, para candidatos e diretórios do partido, para ministros
do governo e até para parlamentares de outros partidos, não
era do conhecimento de ninguém e foi um ato individual, isolado.
Caramba!, diante da quantidade de pessoas, bancos e empresas envolvidas
nas transações milionárias, nenhum dirigente, líder
ou membro do alto escalão do governo estava ciente do que acontecia?
Haja dialética...
Vamos imaginar a dialética
em escala doméstica. Suponhamos que meu filho seja flagrado em empréstimos
e financiamentos ilícitos para pagar minhas contas, usando meu nome
como aval para tais negociações. Enquanto a ilicitude não
é descoberta, toco a vida numa boa. Quando o garoto é pego
com a mão na cumbuca, digo que nada sei, nunca soube, que assinei
contratos sem ler, que saquei dinheiro sem saber a origem, que não
imaginava ser envolvido em esquemas de caixa dois etc. Digo mais, que estou
decepcionado com meu filho, que ele agiu por conta própria e que
não está honrando a tradição familiar. Digo
também que estou pensando em afastá-lo da família
para que possa se defender. É dialética pura...
No depoimento do ex-chefe
da Casa Civil do governo à Comissão de Ética assistimos
a uma aula magna de dialética, que talvez poucos tenham notado.
Em seu discurso de apresentação, o deputado afirmou jamais
ter cogitado disputar as eleições de 2006 para o governo
de São Paulo, ou de 2010 para a presidência da República.
Foi categórico ao dizer que o único projeto de seu coração
era t|lochão somente governar com o atual presidente, na qualidade
de ministro da articulação política. Minutos depois,
não foi possível cronometrar, ao ser perguntado por que deixou
o governo, alegou tratar-se de uma decisão pessoal, para contribuir
com a reforma ministerial, e segundo sua avaliação de que
era importante voltar à Câmara dos Deputados e atuar como
parlamentar. Mais dialético, impossível...
Vejamos o caso do caixa dois.
Quando tal expediente é praticado por partidos "tradicionais", configura
crime e deve ser punido. Quando o caixa dois é praticado pelo partido
do governo, trata-se de um erro, um deslize pessoal de conduta, que a todos
surpreende e consterna. Muitos candidatos que fizeram suas campanhas discursando
contra tais expedientes foram justamente patrocinados por tal expediente.
E todos sabem que o dinheiro não foi "contabilizado", mas não
se preocuparam em saber de onde vinha a dinheirama. A dialética
é uma panacéia...
Para finalizar, um exemplo
incontestável de dialética ministrado por nosso presidente
em recente cerimônia populista, digo, popular. Acossado pela crise,
o chefe máximo da nação declarou-se vítima
das elites. Ora vejamos, em que outro governo os bancos bateram tantos
recordes de lucro? Em que outro governo comemoramos tantos recordes de
exportações? Em que outro governo constatamos tamanho congestionamento
em vôos turísticos, nacionais e internacionais? Apesar da
crise, a Bolsa de Valores se mantém em alta. Os índices de
crescimento das indústrias também. Que outro governo satisfez
tanto às elites? Ao que me consta, os candidatos ao Fome Zero (sic)
não têm conta em banco, não exportam nada, não
viajam para Disney, não investem em ações, não
dirigem empresas e talvez nem façam idéia do que seja Daslu.
Entendo que o propósito de nosso presidente seja didático,
isto é, demonstrar na própria carne a força da dialética...
Ao fim destas considerações
improvisadas, constato que além da dial|dbchética marxista,
o Brasil também colocou em prática o genuíno platonismo.
Expurgamos a poesia e colocamos um filósofo no comando do país.
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