| Poder x pobreza
Trata-se de um equívoco
grosseiro o argumento do presidente George W. Bush de que o conflito com
o terrorismo será uma guerra "do bem contra o mal". O pior é
que a opinião pública norte-americana, e mesmo parte do resto
do mundo, vai engolir esse falsete retórico.
Em primeiro lugar, a explicação
maniqueísta é muito limitada, em termos conceituais, porque
não dá conta da complexidade das questões que estão
em jogo. Interesses político-econômicos; conflitos históricos
no Oriente Médio; culturas e ideologias diversas; selvageria no
projeto de globalização etc.
Nem mesmo no âmbito
subjetivo, pessoal, o maniqueísmo se sustenta, pois todos nós
somos bons e maus, ou temos a predisposição para ambos, o
que nos obriga a escolhas permanentes. A razão, a sensibilidade
e o convívio com os outros definem os parâmetros de nosso
julgamento. Ainda assim, regras genéricas, sociais, são estabelecidas
historicamente para ampliar o discernimento individual e torná-lo
aplicável a todos.
Na perspectiva religiosa,
o argumento é menos sustentável ainda. Deus está dos
dois lados, quer seja chamado de God ou Allah. Não há como
provar que um Deus é melhor que o outro, ou mais verdadeiro, ou
mais justo. Ou qual dos lados está com o Deus certo. Nem mesmo há
como provar que Ele realmente exista, exceto pela crença arbitrária.
Se há somente um Deus,
então somos uns idiotas por ficar lutando por deuses diferentes.
Por outro lado, se cada interpretação valida a existência
de um tipo de Deus específico, diferente dos demais, então
também somos uns idiotas por ficar defendendo a especificidade do
nosso Deus particular, uma vez que podem existir tantos deuses quanto seres
humanos no planeta.
Dizer que a guerra se justifica
pela vontade de Deus é uma bobagem sem tamanho, uma desculpa esfarrapada
para encobrir a vontade humana, esta sim, que conduz realmente nossos atos.
Quando muito, vale como slogan para o marketing do combate, para insuflar
as tropas, dar-lhes ânimo para doar a vida por uma causa no mínimo
discutível.
O que está realmente
em conflito é a concentração excessiva de poder e
de pobreza. Não é preciso ler Maquiavel (1469-1527) para
saber do perigo que representa a concentração do poder em
poucas mãos, da tendência natural de quem tem muito poder
em querer impor-se. Nem é preciso ser comissário da ONU para
concluir que a miséria facilmente se torna um pré-requisito
para a ignorância e o fanatismo, um binômio explosivo.
Por que será que existem
milhares de muçulmanos espalhados pelo mundo, bem alimentados, empregados
dignamente, cidadãos que praticam livremente seu credo, e que não
planejam explodir prédios? O terrorismo não tem nada a ver
com a fé. O ato terrorista, embora inaceitável, é
uma reação enlouquecida da pobreza extrema contra os abusos
do poder.
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