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Rock'n'roll e Shakespeare - o improvável paralelo

Vi outro dia na Folha de S. Paulo que Paulo Mendes Campos (aquele mesmo, do Para Gostar de Ler) lia as criticas que Bernard Shaw fazia a Shakespeare e concordava com tudo, mas depois lia Shakespeare e esquecia de Shaw. Sei, racionalmente e por conhecer alguma coisa de teoria musical, que o Rock'n'Roll quase que nem música é (aliás, o sujeito não precisa ter estudado num conservatório em Viena pra perceber isso). 

O rock é, em geral, repetitivo, pretensioso e tolo, tanto na forma quanto no conteúdo (que conteúdo?)... E eu, tendo ainda alguns poucos mas eficientes neurônios instalados no meu desgastado cérebro, e sendo razoavelmente letrado, compreendo facilmente essas verdades tão simples. Até aí, tudo bem. O problema é quando entro no meu quarto, tranco a porta e ouço Led Zeppelin no talo, sendo imediatamente tomado por um prazer e uma euforia tão intensas que não sei nem como explicar... Sou capaz de ficar assim durante horas, berrando junto com o disco e me divertindo pra cacete, sem fazer mal a ninguém (talvez um pouco aos meus vizinhos). E aí toda a teoria musical vai pro espaço... 

Deve ser isso que os americanos chamam de good clean fun: diversão saudável e irracional. 

(Paulo Francis escreveu certa vez que o rock para ele soava como "manha de criança insuportável". Recortei do jornal e preguei na parede, porque achei a definição brilhante)

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