| Bridget Jones e outros
livros de auto-ajuda
Eu juro que não consigo
entender porque é que tanta gente tem tanta coisa contra os best
sellers em geral. Particularmente, só tenho um comentário
a fazer: antes de entrar para a categoria dos best sellers, um livro precisa
conquistar muito mais público leitor do que aqueles que atinjem
apenas a marca dos "the best".
É claro que isso está
bem longe de ser garantia de qualidade e que, sem dúvida, o mundo
seria muito melhor se as preferências literárias pairassem
acima do bem, do mal e dessa baboseira toda. Acontece que o mundo é
mau, que a leitura para todos os gostos é um fato e que, pricipalmente,
não é nem um pouco saudável menosprezar a inteligência
dos outros, em especial quando esses outros estão em maioria.
Mas esta não é
a questão. O ponto que desejo abordar baseia-se no fato de que,
estranhamente, as pessoas que mais criticam os best sellers são
justamente aquelas que nunca os lêem. Ou nunca confessam que os lêem,
já que isso pode ser feito na mais completa surdina.
Oras, até onde a minha
vista alcança, muito pouca gente tem o hábito de criticar
filmes sem assistí-los, de onde se deduz que a maior parte das pessoas
não considera perda de tempo ir ao cinema. Antes de criticar um
jornal ou um cronista, é considerado de bom tom acompanhar o seu
trabalho por algum tempo. Portanto, ninguém tem vergonha de ler
jornais e revistas. Todo mundo concorda, ainda, que para detestar uma música
é preciso tê-la ouvido, primeiro. Até mesmo aqueles
programas que fazem jorrar sangue da televisão vira e mexe são
assistidos, embora isso só seja possível quando se está
de passagem pela porta do quarto da empregada. Por que, então, o
preconceito com os livros?
Bem, como alugar filmes não
é nenhum pecado intelectual, desde que o conteúdo não
inclua catástrofes envolvendo grandes tubarões assassinos
ou transatlânticos gigantescos que se partem no meio do oceano, tempos
atrás assisti "O Diário de Bridget Jones": uma comédia
romântica bem engraçadinha, em que Colin Firth interpreta
um Mark Darcy de tirar o fôlego. Tá certo que algumas vulgaridades
desnecessárias da personagem principal chegaram a me incomodar.
Mas como eu havia lido em algum lugar do passado que ela "é o ícone
da mulher inglesa solteira de fim de século", decidi ficar quieta.
Afinal, quem sou eu para discutir sobre ícones e mulheres solteiras
com o império britânico em pessoa?
Só que, num dia desses,
ao passear por uma livraria dei de cara com a Bridget Jones no Limite da
Razão. Não resisti e levei-a para casa com Helen Fielding
e tudo. Quer saber as minhas impressões? Bem, eu sobrevivi, não
é verdade?
Agora falando sério:
o livro é muitíssimo bem escrito e o estilo é tão
realístico, mas tão realístico, que eu precisei ler
bem umas 250 páginas até ter certeza absoluta de ele não
retrata ícone de coisíssima nenhuma. Ao contrário:
Helen Fielding faz uma maravilhosa sátira da alienação
em geral e da dependência dos livros de auto-ajuda, em particular.
Assuntos bem pertinentes "na" e "para a" sociedade em que vivemos, diga-se
de passagem.
Precisei passar horas com
raiva daquela personagem maluca; precisei chamá-la de burra inúmeras
vezes; precisei ter vontade de arrancar as páginas do livro, uma
a uma, e as ir soltando pela janela de algum ônibus em movimento
até descobrir, afinal, que aquelas 444 páginas da vida de
Bridget Jones acabam exercendo sua função educativa quando,
quase que subliminarmente, fazem com que o leitor perceba o quanto é
imbecil tentar enquadrar todos os comportamentos e emoções
na mesma meia dúzia de regras e, o que é mais importante,
o quanto pode ser perigoso viver em situação de vácuo
absoluto de cultura geral e de interesse em obtê-la. Outro tema,
aliás, muitíssimo pertinente diante das condições
psíquico-culturais do momento. Isso é ou não é
uma espécie bem louvável de auto-ajuda?
Infelizmente pude comprovar,
desta vez por escrito, que a Bridget Jones sofre mesmo de uma ligeira vulgaridade
que me parece ser crônica e totalmente desnecessária. Mas
como a Helen Fielding tem todo o direito de criar os seus filhos do jeito
que bem entender, não vou pronunciar uma só palavra a este
respeito.
Mas, quer saber de uma coisa?
Se eu fosse uma mulher inglesa solteira de fim de século ficaria
muito, mas muito brava mesmo com aquela história do ícone.
A não ser, é claro, que todas as mulheres inglesas solteiras
de fim de século sejam medíocres e alienadas o bastante para
nem notar a alfinetada. Ou, talvez, que nenhuma delas tenha lido a crítica.
Ou ainda, que a tenham lido naquele estado de graça que só
é alcançado depois da ingestão de diversas unidades
alcóolicas.
De qualquer forma, se você
quer ter a experiência de ficar com raiva e dar risada, tudo ao mesmo
tempo, leia sem medo da opinião alheia e sem a menor vergonha na
cara de ser feliz. Eu me diverti bastante, pelo menos depois que descobri
que era tudo de mentirinha. É provável que você se
divirta ainda mais, porque já vai começar sabendo.
Mas a melhor parte de todas
é que, assim como eu, você vai poder fazer os seus comentários
com profundo conhecimento de causa. Melhor que isso, impossível.
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