| Durma com um barulho
desses
"Atenção: este
veículo está sendo roubado e é monitorado pela Empresa
Tal. Por favor, ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado. Uó,
uó, uó, uó. Atenção: este veículo
está sendo roubado e é monitorado pela empresa Tal. Por favor,
ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado. Uó, uó,
uó, uó. Atenção: este veículo está...
"
Quando o som ininterrupto
do alarme invadiu o meu quarto às dez para as onze da noite de uma
quarta-feira, fui até a janela para identificar de onde ele vinha.
Descobri, por razões bastante óbvias, que só poderia
ser da rua de trás.
Moro num bairro cheio de
curvas e terrenos irregulares. O da minha casa é bem comprido e
estreito, o que sempre me deu a impressão de viver dentro de um
trem. Como o meu quarto é o último vagão, fica muito
mais perto da rua de trás do que da minha própria rua. Pela
intensidade do som, ele só poderia estar vindo de lá.
Certa de que o alarme havia
disparado por qualquer motivo, menos roubo, fechei o vidro e aumentei o
volume da TV, considerando que aquele estardalhaço todo até
que era uma boa idéia. Não há bandido que agüente.
Mas depois de dez minutos com o quarto esquentando e os personagens do
filme berrando, eu ainda podia ouvir claramente o "...Uó, uó,
uó, uó. Atenção: este veículo está
sendo roubado e é monitorado pela empresa Tal. Por favor, ligue
para...". Não tive dúvidas: peguei o telefone, digitei zero
oitocentos e blablabla e descobri que a empresa de monitoramento não
pode mover uma palha, sequer, sem saber qual é a chapa do veículo
que, até prova em contrário, estaria sendo roubado, uó
uó, uó e coisa e tal.
Trinta minutos mais tarde,
comecei a ficar inquieta. Nos últimos dias eu tinha trabalhado até
quase de manhã e precisava dormir. Revisei na memória aquele
trecho que fica bem atrás da minha casa: tem uma escolinha de arte,
um salão de barbeiro, uma confecção, um restaurante
por quilo, uma marcenaria, uma oficina, uma vidraçaria, do outro
lado da rua tem uma praça... nenhuma residência. Caramba,
nenhuma residência! Ninguénzinho para ouvir o som mais alto
do que eu. E nem igual, já que os quartos de todos os meus vizinhos
de rua ficam lá na frente.
Esperei que um milagre acontecesse
nos 10 minutos seguintes mas, diante das circunstâncias, eu já
sabia que teria que fazer esse favorzinho para eles. Troquei o pijama por
uma roupa e lá fui eu, quase meia noite, contornando o enorme quarteirão
munida de caneta e papel. Nada de carro no meio da rua e quase nada de
barulho. Para ter certeza de que o alarme vinha da oficina, praticamente
encostei a orelha na porta. Sim: o carro estava lá dentro e bem
no fundo. A poucos metros do meu quintal. E do meu ouvido, diga-se de passagem.
Por um momento fiquei olhando para a fachada, sem saber o que fazer: na
placa, o número do telefone. Bobagem, já que não tinha
ninguém lá dentro. Mas, de repente, vislumbrei a única
solução possível numa plaquinha de metal bem pequena:
o telefone da empresa que dá segurança à oficina.
Não tive pudor em
ligar. É claro que uma empresa de segurança sabe como entrar
em contato com os seus clientes, a qualquer hora do dia ou da noite. Expliquei
o problema à solícita atendente. Ela própria ouviu,
pelo telefone, a intensidade do alarme falso que ecoava dentro do meu quarto.
Dei o endereço à moça e pedi, ou melhor, implorei,
que ela entrasse em contato com alguém que pudesse resolver a questão.
Depois disso, sosseguei.
Uma hora da madrugada, continuávamos
nós: "...roubado e é monitorado pela Empresa Tal. Por favor,
ligue para zero oitocentos e blablabla. Obrigado...". Bem, antes de telefonar
para o cliente, a empresa de segurança deve ter pedido ao pessoal
que faz a ronda para confirmar o problema e isso leva algum tempo. Compreensível.
Vinte para as duas da madrugada. "...Por favor, ligue para zero oitocentos
e blablabla. Obrigado. Uó, uó, uó, uó. Atenção...".
Bem, quase todo mundo que tem empresas por aqui mora no bairro, mas quem
sabe o dono dessa oficina more longe? Vai saber. Duas e quinze da madrugada.
"...e é monitorado pela Empresa Tal. Por favor, ligue..."
Vou chamar a polícia. Mas, pensando bem, o é que a polícia
poderia fazer para resolver este caso? Gritar pelo megafone para o alarme
calar a boca? Dez para as três da madrugada. "... zero oitocentos
e blablabla. Obrigado. Uó, uó, uó, uó. Atenção:
este veículo está...". E essa droga de bateria? Não
acaba?
Bem, justiça seja
feita: essa bateria e a mãe dela podem ser tudo nesta vida, menos
uma droga. Afinal, ela só foi dar os primeiros sinais de cansaço
lá pelas três e meia da madrugada, depois de quase cinco horas
de gritaria. E foi só quando o volume do uó uó uó
baixou um pouco que eu consegui desmaiar.
Sei que jamais vou descobrir
se foi a solícita atendente que se fez de surda, se foi a empresa
de segurança que resolveu não se meter ou se foi o dono da
oficina que não deu a menor bola para a torcida. Mas, seja como
for, pela primeira vez fui obrigada a reclamar da boa qualidade de um produto
e ainda desejar ardentemente que ele fosse bem pior. Durma com um barulho
desses.
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