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Nunca tinha andado de viatura antes e confesso que não me senti muito confortável. Fiquei muda o caminho inteiro pensando que aquele cara idiota deveria ter alguma coisa a ver com aquela história. Pelo menos o guarda não conversava e só teve a infeliz idéia de ligar a sirene do carro quando já estávamos chegando na delegacia. 

Mal entramos e eu dei de cara com a minha mãe que estava aos prantos. Ela veio correndo ao meu encontro, me abraçou e não parava de perguntar se eu estava bem. Aí que eu não entendi nada mesmo e o pior é que minha mãe não respondia as minhas perguntas, só ficava repetindo "graças a Deus, graças a Deus". Daí apareceu aquele bicha com cara de cabeleireiro dizendo que "a Deus e a mim também". Nessa hora eu cheguei a pensar que talvez tivesse sido melhor ter ficado na pizzaria com o chato. 

Não fazia nem três minutos que eu estava ali e o delegado se mostrou surpreendentemente prestativo e mandou que nós - eu, minha mãe e o bicha - entrássemos para o depoimento. O delegado perguntou quantos homens haviam me seqüestrado e eu respondi que nunca havia sido seqüestrada na vida, graças a Deus. Os olhares do delegado, da minha mãe, do escrivão e do guarda, que estava me acompanhando até ali, voltaram-se para o bicha. O delegado parecia irritado e perguntou como eu não havia sido seqüestrada se tinha até jogado o celular pela janela do carro numa maneira de fazer contato e ser salva. Enfiei a mão na bolsa e vi que realmente o celular não estava lá. Olhei para o bicha e, ou ele tinha um celular igual ao meu, ou ele estava segurando o meu aparelho. 

Minha mãe parou de chorar e se mostrava tão desentendida quanto eu. "Mas, seu delegado, esse homem ligou para a minha casa perguntando se eu conhecia alguém que tivesse um Gol preto e avisou que a dona desse carro estava sendo seqüestrada!" 

O delegado, agora visivelmente irritado, começou a interrogar o bicha, que a essa altura tinha perdido todo o seu falso glamour e, você sabe, policiais não costumam gostar de homossexuais, pelo menos não na frente de estranhos. Pediu nome, endereço, profissão - foi aí que eu descobri que ele era cabeleireiro mesmo. 

O bicha, está bem, vamos chamá-lo de cabeleireiro, o cabeleireiro contou que estava parado na porta de seu prédio esperando um amigo que vinha buscá-lo para uma festa quando viu passar o Gol preto com duas, sim, ele disse que tinham duas pessoas no carro e que a mulher que estava dirigindo, certamente com uma arma sendo apontada a ela já que não era normal alguém dirigir tão mal assim, jogou o celular pela janela. Ele então logo deduziu que a mulher estava sendo seqüestrada e que havia jogado o celular numa tentativa de deixar uma pista. 

Ainda assustado, o cabeleireiro pegou o celular e ficou sem saber o que fazer. Pensou um pouco e resolver acionar o último número discado pelo celular. Só que esse número era o da minha amiga, que, àquela altura, já estava conversando comigo e assim seu telefone estava ocupado. Num rasgo de esperteza, o cabeleireiro ligou para o primeiro número da discagem automática. Como eu não 
tenho namorado, esse número era o da minha mãe. 

Ela atendeu e ele perguntou se ela conhecia uma mulher que tinha um Gol preto. Ela respondeu que sim e então ele disse "faça alguma coisa porque ela sendo seqüestrada". Minha mãe se desesperou e nem perguntou os detalhes do caso a ele. Ligou para a polícia na hora. O policial mandou que ela fosse à delegacia imediatamente. O cabeleireiro ligou de novo, preocupado, e minha mãe perguntou onde ele estava. Por uma trágica coincidência, moramos todos próximos. Ela pediu se ele não poderia acompanhá-la até a delegacia, ela estava sozinha (sim, meu pobre avô morreu faz anos), sem carro e, afinal, ele era testemunha do caso. 

O delegado, já enfurecido com a palhaçada, me perguntou por que diabos eu havia jogado o celular pela janela e eu me perguntava por que diabos aquela porcaria não tinha quebrado com o tombo. É, no que o cabeleireiro começou a sua história rocambolesca eu me lembrei que tinha deixado o celular na capota do carro. Contei tudo ao delegado, quer dizer, não contei o motivo pelo qual eu saíra tão apressada da pizzaria, mas disse que tinha esquecido o celular na capota do carro. 

Minha mãe já estava pronta para agarrar as mechas loiras do cabeleireiro quando o meu celular, que estava nas mãos dele, tocou. Todos se entreolharam como se um seqüestrador estivesse do outro lado da linha e o delegado mandou que eu atendesse. Era, claro, o meu amigo virtual querendo saber 
se meu avô estava melhor. 

Eu comecei a falar que ele estava melhor, que tinha sido apenas um susto, e todos me olharam como seu eu estivesse escondendo alguma coisa. Mais uma vez naquela noite eu não agüentava mais e me perguntava se o Fernando Sabino, ou seja lá quem fosse o autor da frase, teria dito aquilo se me conhecesse. O chato, como era de se supor, não parava de falar e a cada vez que eu dizia que precisava desligar ele perguntava seu eu não precisava mesmo dele enquanto a minha mãe, o delegado, o escrivão, o guarda e o cabeleireiro me olhavam com ainda mais suspeitas. 

Finalmente consegui desligar e tive que explicar que tinha inventado uma história para me livrar de uma companhia desagradável, que por isso havia saído com pressa da pizzaria e esquecido de guardar o celular. O delegado nos deu uma bronca por acionar a polícia à toa e eu me despedi deles ridiculamente pedindo desculpas por ter esquecido o celular na capota do carro. Desta vez tive o cuidado de guardar o telefone na bolsa e nem quis ouvir as desculpas e explicações que o cabeleireiro tentava dar. 

Levei minha mãe e fui para minha casa. O porteiro interfonou para avisar que eu podia ficar sossegada, que ele estaria alerta a noite inteira. Pronto, ia ficar conhecida no prédio como "a seqüestrada". 
ve distorção vernácula em curso e ninguém faz nada. Depois não digam que eu não avisei.

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